Na Noite


Na noite ficámos, nessa noite em que nos conhecemos e a quem devemos tudo – A quem devemos demais. Como vampiros, ou seres noctívagos de qualquer outro tipo, alimentámo-nos de tudo o que ela tinha para nos oferecer: Desespero, sofreguidão, loucura… Até à exaustão, até não haver mais nada para consumir… E de repente chegou o dia, e tudo está mais claro: As imperfeições mostram-se, desprotegidas, e após toda a maquilhagem desaparecer percebemos cruamente que a noite passou depressa demais. Os olhos encovados e as sobrancelhas cerradas sussurram-nos que devíamos provavelmente ter ficado na noite, essa que conhecemos tão bem, que nos protege e nos devolve apenas imagens embriagadas. Não sabemos como ser, como estar, como ficar, um com o outro, longe da noite. De repente tudo é claro e doloroso e já não sei sequer se te amo, porque afinal na noite eu não era eu e tu não eras tu, quem éramos nós afinal? E como recomeçar agora, se foi na noite, nos silêncios, nas repressões, nas traições, nas humilhações, nas mentiras e omissões, que este amor passou a ser tanto, passou a ser tudo? Como te explicar que não gosto de mim assim, sem isto, apenas eu, ou será que não gostava de como era antes? Será que isso te interessa? Será que sabes sequer a diferença? Será que não gosto da pessoa que sou contigo agora? Ou será que nunca gostei de quem fui? Como sair para a claridade do dia se no fundo, bem lá no fundo, a noite parece cada vez mais confortável

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